
Um estudo inédito da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) acende um alerta grave para o agronegócio brasileiro: se o ritmo atual de contratações for mantido, o país pode encerrar 2025 com praticamente o mesmo nível de cobertura de seguro rural registrado há dez anos — e com cerca de 95% da área plantada completamente desprotegida.
Mesmo sendo responsável por quase 25% do PIB nacional, segundo o Cepea/Esalq-USP, o agro enfrenta um cenário paradoxal: enquanto a área cultivada cresce, a proteção financeira encolhe.
Um rombo bilionário no seguro rural
O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) deveria operar em 2025 com aproximadamente R$ 4 bilhões. No entanto, os recursos disponíveis não passam de R$ 1 bilhão — um déficit de R$ 3 bilhões que compromete a segurança do produtor e a estabilidade do setor.
Até julho, apenas 2,2 milhões de hectares haviam sido segurados, o equivalente a 2,3% da área plantada total (97 milhões de hectares). Para comparação:
- 2015: 78,1 milhões ha cultivados, 2,6 milhões ha segurados (3,3%)
- 2025: 97 milhões ha cultivados, 2,2 milhões ha segurados (2,3%)
Ou seja, mesmo com uma expansão significativa da agricultura, a proteção recuou para níveis inferiores aos de uma década atrás.
“Produtor está vulnerável a perder tudo em uma safra”
Dyogo Oliveira, presidente da CNseg, resume o cenário:
“A área segurada no Brasil ainda é muito baixa, o que deixa milhares de produtores expostos e podendo perder tudo em uma única safra.”
Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 90% da área plantada é coberta por programas governamentais — e o governo subsidia, em média, 60% dos prêmios.
Contratações em queda e cobertura fragmentada
Com uma média de apenas 6,7 mil apólices contratadas por mês via PSR, a projeção para 2025 é fechar o ano com 4 a 5 milhões de hectares segurados — praticamente o mesmo nível de 2015.
A instabilidade orçamentária vem forçando produtores a:
- reduzir a área segurada;
- contratar apólices apenas para culturas de maior risco (como milho safrinha);
- ou abandonar completamente o seguro.
Glaucio Toyama, da FenSeg, alerta:
“Sem a subvenção, quem fica de fora é justamente o produtor mais vulnerável.”
Produtores capitalizados continuam contratando, porém sem apoio governamental, enquanto pequenos e médios ficam expostos às perdas climáticas — cada vez mais frequentes e severas.
Ciclo vicioso: quebra, renegociação e gasto público
A falta de cobertura gera um efeito dominó:
- O produtor perde a safra.
- Sem seguro, não consegue honrar financiamentos.
- O governo é obrigado a criar programas emergenciais de renegociação.
- O custo explode nas contas públicas.
Segundo Toyama, isso desestimula gerações mais novas, que veem a atividade como financeiramente insustentável.
Queda nas indenizações e arrecadação confirma o enfraquecimento
Entre janeiro e agosto de 2025, o setor de seguro rural registrou:
- queda de 6,7% na arrecadação (R$ 8,7 bilhões);
- retração de 7,4% nas indenizações (R$ 3,1 bilhões).
A perda de fôlego financeiro aprofunda o risco de instabilidade no campo, afetando produtividade, renda e segurança alimentar.
Conclusão: sem previsibilidade, o risco é nacional
O PSR enfrenta restrições severas, execução incompleta dos recursos e falta de previsibilidade — fatores que ameaçam não apenas a renda do produtor, mas a competitividade do agro brasileiro.
Se nada mudar, 95% da área plantada do país pode chegar ao fim de 2025 sem seguro rural, deixando o setor — e o Brasil — expostos a um risco climático e financeiro sem precedentes.
Fonte:
Forbes Agro – “Buraco de R$ 3 Bi: 95% da Área Plantada no Brasil Pode Terminar 2025 sem Seguro Rural” (publicado em 29/10/2025).